O último texto que você lerá hoje

Como Tirar Projetos do Papel: O Desafio de Pensar e Agir na Era Digital

Como Tirar Projetos do Papel: O Desafio de Pensar e Agir na Era Digital

Espero que este seja o último texto que você lerá hoje. Digo isso, porque, confesso, estou cansado de conversar com gente que lê muito, estuda muito, mas pensa e realiza pouco. Temos pensadores demais e fazedores de menos. Qualquer pessoa sabe que uma criança de hoje, com apenas seis ou sete anos de idade, possui muito mais informações do que imperadores do passado no auge do poder. Talvez seja por isso que esses homens conquistaram tanto na vida, pois gastaram menos tempo no estudo e se dedicaram mais aos seus objetivos conquistadores. Garanto que não era por falta do que estudar. Naqueles tempos também já existiam muitos conteúdos de inúmeras matérias, e os imperadores tinham acesso a todos eles, podiam, pois, se dedicar dia e noite a aprender, esquecendo-se dos objetivos a serem alcançados.

Citar pensamentos de outras pessoas e realizar longas revisões bibliográficas são coisas admiráveis, mas muito fáceis de se fazer, pois não exigem esforço além de sentar, ler e decorar. Quando tenho oportunidade para falar com esses “citadores” ou “recitadores”, eu pergunto: “E VOCÊ, o que PENSA disso tudo?”.

Pensar e realizar exigem esforço. É desafiador, confronta, mexe com o intelecto, derruba ideias preconcebidas e, às vezes, traz até desilusão. Mas esse é o ganho de quem se permite pensar. O que adquirimos de conhecimento por meio do estudo deve nos levar ao próximo passo, que é refletir sobre esse conhecimento. “Citar pensamentos” é apenas continuar no mesmo lugar. Os autores que são citados, na verdade, são estudantes do passado que, municiados do conhecimento que tinham à época, decidiram pensar sobre determinado tema, ao invés de meramente citar outros estudiosos do assunto. Os trabalhos de conclusão de cursos que vemos hoje são bons exemplos disso. Quase todos se resumem a eternos “segundo fulano de tal”, “de acordo com beltrano”, “conforme cicrano”. A maioria dos trabalhos não passa de mais do mesmo que já existia – e a opinião do estudante sequer aparece.

Infelizmente, o estudo virou muleta para aqueles que não estão dispostos a pensar e/ou a realizar algo novo. Uma prova disso está na relação existente entre o mundo acadêmico e a vida real, o mundo prático. Ao contrário do que se imagina, milhares de ideias geniais surgidas na academia jamais alcançarão o mundo real. É bem provável que a maioria delas permaneça arquivada nos bancos de dados das universidades e permanecerão ocultas para sempre. Com raríssimas exceções, tais ideias ganharão as ruas e se tornarão úteis.

Fui militar de carreira e trabalhei por 12 anos no Quartel-General do Exército, em Brasília, numa seção que recebia e arquivava centenas dos chamados “Trabalhos de Natureza Profissional”, realizados pelos militares de todo o Brasil. Eu tive o privilégio de ler centenas desses projetos inovadores. Por isso, afirmo, categoricamente, que quase nenhum deles saiu do papel e alcançou o mundo. Não por falta de incentivo da minha parte, que sempre que encontrava uma brecha, levantava esse assunto aos meus superiores.

E foi no Exército também que encontrei um militar que havia feito 86 cursos durante a carreira, incluindo faculdades, mestrados, doutorados, pós e pós e pós… Não hesitei em perguntar-lhe: “E quando foi que você trabalhou em alguma das áreas que estudou?”. Do alto dos seus mais de 60 anos, o cidadão ainda estava se “preparando”.

As pessoas que realizam, geralmente, são as que estudaram menos. Há exceções, claro, mas bem poucas. É só dar uma revisada na História e você descobrirá pessoas que se dedicaram mais a fazer do que a estudar, e deixaram um legado extraordinário – Cristóvão Colombo e Bill Gates são dois exemplos clássicos. Estudaram, sim, mas não se ativeram no plano teórico.  Deram o próximo passo, que foi colocar a mão na massa, a fim de realizar. E, assim, abriram um negócio, colocaram ideias em produção, fizeram experimentos, conquistaram aquele sonho antigo, se dedicaram a ensinar e a fazer discípulos, enfim, DECIDIRAM PENSAR E AGIR, e não apenas a reproduzir tudo o que aprenderam nos livros.

Tendo em vista o volume excessivo de informações que hoje temos à nossa disposição, creio que um dos maiores desafios seja selecionar o que consumir e ter discernimento para descartar o que nada acrescenta. Não temos tempo útil para ler, ouvir e ver tudo o que nos interessa. Só seria possível, caso vivêssemos 500, 1.000, 2.000 anos, e olhe lá. Nem garanto que daria tempo. O volume de informações é quase infinito, mesmo.

Portanto, espero que este seja o último texto de outra pessoa que você lerá hoje. Sem querer tomar mais do seu precioso tempo, eu gostaria de incentivá-lo a dar uma parada de leve nos estudos, e pensar em realizar alguma coisa com tudo o que já estudou até agora. Conheço algumas crianças e adolescentes que, mesmo com sua pouca idade, já deixaram suas marcas na História, pois aprenderam a equilibrar estudo e realização. De repente, se ainda não deixou sua marca, quem sabe, hoje poderá ser o seu dia de começar!

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